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terça-feira, 3 de novembro de 2020

Universitários do Ceará suspendem disciplinas por dificuldades econômicas e de acesso à internet



A estudante Jennifer Sanye precisou ceder espaço ao trabalho, deixando os estudos de lado — Foto: Arquivo pessoal

Acesso reduzido a computadores e à internet em casa, ambientes de estudo inadequados e deficiências financeiras são os maiores desafios enfrentados pelos universitários do Ceará. Em alguns casos, estudantes tomaram a difícil decisão de suspender disciplinas.

A estudante Jennifer Sanye, 20, cursa Engenharia Ambiental do Instituto Federal do Ceará (IFCE) em Juazeiro do Norte e viu o cotidiano ser modificado com a chegada do novo coronavírus. Enquanto antes ela conseguia se dedicar integralmente à universidade, hoje precisou ceder espaço integral ao trabalho.

“O estudo não é algo imediato e, por conta disso, para algumas pessoas da família, um trabalho estável de carteira assinada é melhor do que estar estudando”, comenta. Além disso, também lida com uma internet instável e não tem computador para realizar os trabalhos, apesar de uma amiga ter emprestado o equipamento, no início. Porém, a falta de estrutura fez com que precisasse abandonar quatro disciplinas, mesmo tendo concluído duas.

“É bem complicado. Minha perspectiva está defasada e me abala totalmente, porque é meu sonho, meu futuro aqui e estou estagnada dele. É como se a cada dia ficasse mais distante uma coisa que lutei tanto para conseguir e luto até hoje”, compartilha.

Sendo a primeira pessoa da família a ingressar no ensino superior, Jennifer planeja se reorganizar e retornar aos estudos após receber um tablet do IFCE. “O estudo sempre foi algo de mais importante que eu tive. Para mim, entrar no IFCE foi a maior conquista da minha vida”, acrescenta.

Desafios

A universitária Larissa Costa, 20, também percebeu a entrada no ensino superior como uma grande conquista e marco em sua vida. Apesar de ser neta de cearenses, cresceu no Pará e somente ao passar no curso de Humanidades na Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab), em 2019, ela teve a primeira vivência a longo prazo no Ceará.

“Ter ido para a Unilab foi uma das experiências mais incríveis que já tive na vida, porque é um lugar muito diverso, encontro pessoas de todo jeito, com pensamento completamente diferentes”, comenta. Durante um semestre, pôde se apaixonar pelo Ceará e foi “uma tristeza muito grande” precisar suspender as atividades na instituição.

A jovem havia viajado ao Pará durante as férias e planejava regressar ao Nordeste logo depois, mas com a pandemia, não foi possível. Em poucos meses, viveu muitas mudanças, precisou vender os pertences no Ceará e, com dificuldade de acesso à internet em sua casa, assim como o aumento de responsabilidade nas atividades domésticas, não conseguiu se engajar no ensino remoto.

“Eu penso em retornar, mas não faço a mínima ideia de quando vou poder”, pontua. Apesar de incerto, vê o regresso como um caminho a ser tomado assim que possível. Para ela, o ensino superior é “fundamental para a formação do pensamento crítico da população e esperança para jovens de classe mais baixas”.

Doutor em Educação e professor universitário, Wesbter Belmino avalia que dificuldades estruturais e financeiras lideram os motivos para afastamento dos jovens do ensino superior. “As desigualdades de fora da universidade se reproduzem dentro, e a pandemia as aprofundou. Se cursar universidade já é difícil para o jovem trabalhador, ele precisou, com a pandemia, dispor de mais recursos ainda. Sem acesso às aulas presenciais, precisou de acesso remoto, que exige bons equipamentos e boa conexão. Os filhos da classe média ficaram mais prejudicados”.


O professor acrescenta que o adoecimento emocional também entra na lista de prejuízos aos universitários, e destaca que, na universidade em que leciona, a soma de alunos que abandonaram o semestre passado e que não se matricularam no atual é expressiva. “Se não revertermos essa situação, o avanço que se teve há cerca de quatro anos vai desaparecer. A população jovem continua aumentando, mas a oferta de vagas públicas ou de financiamento das privadas não acompanha isso. Podemos voltar a ter índices de acesso ao ensino superior como no final do século passado”, lamenta o educador.

Direitos

A Constituição de 1988 garante o direito à educação pública, gratuita e de qualidade por parte da população, assim como aponta ser dever do Estado garantir acesso aos níveis elevados de ensino, pesquisa e criação artística, conforme os artigos 205 e 208.

No cenário da pandemia, a advogada e presidente da Comissão de Educação Jurídica da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/CE), Vanessa Oliveira, aponta que o estado deve desenvolver ações de suporte que atenda as necessidades de estudantes universitários incapacitados de seguir com os estudos remotos, apresentando o Auxílio de Inclusão Digital como um exemplo.

Para ela, cabe ao estado “garantir o acesso aos estudantes que estão sendo forçados a suspender o processo de estudos universitários pela falta de acesso à internet ou por não dispor de equipamentos tecnológicos essenciais ao estudo remoto”, declara.

Ações

Na Universidade Federal do Ceará (UFC), 1.459 chips de internet foram entregues a estudantes dos campi, dos quais 298 foram para o interior. Houve ainda distribuição de 122 celulares doados pela Receita Federal do Brasil, de acordo com a Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis (Prae) – que forneceu, ainda, auxílio-inclusão digital de R$ 1,5 mil para a compra de notebooks ou tablets por alunos. Ao todo, foram 1.960 estudantes contemplados pela proposta, sendo 394 do interior.

A universidade também ofertou auxílio-alimentação emergencial, após o fechamento do Restaurante Universitário, para 1.340 alunos em situação de vulnerabilidade social, destinando um valor mensal de até R$ 516,04 para alimentação.

Já a Universidade Federal do Cariri (UFCA), no sul do estado, também lançou edital de Auxílio de Inclusão Digital Especial, que incluía manutenção, compra e melhoramento de equipamentos, assim como o financiamento de acesso à internet de qualidade. Cerca de 725 estudantes foram contemplados pelo benefício. Dentre outros auxílios disponibilizados pela Prae/UFCA estão auxílios creche, moradia, emergencial, óculos e, também alimentação com foco na segurança alimentar.

Na Unilab, 1.901 estudantes foram beneficiados com auxílios ativos no Programa de Assistência Estudantil (Paes); 1.490 chips foram comprados para estudantes em situação de maior vulnerabilidade, devendo ser entregues em dezembro. Nesse mesmo período também serão distribuídos 1.200 tablets.

O Instituto Federal do Ceará (IFCE) adquiriu aproximadamente 5.600 tablets e realizou a entrega de 3.970 para estudantes da graduação e ensino médio de todo o Estado. Enquanto, 514 aparelhos foram entregues em Fortaleza, os outros 3.456 seguiram para as unidades do interior. Conforme a instituição, os aparelhos ficarão com os alunos, mesmo após o período da pandemia. Em relação aos chips de acesso à internet, já foram distribuídos 7.374, enquanto 1.028 se concentraram no campus da capital.

Na Universidade Estadual do Ceará (Uece), assim como as demais universidades estaduais (UVA e Urca), “está em curso com uma ação de aquisição e distribuição de chips com dados móveis para auxiliar esses estudantes”, aponta a instituição.

Por: G1-CE.

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