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terça-feira, 22 de setembro de 2020

Na pandemia, 94 mil alunos ficaram sem atividades remotas no CE


Quando o aprendizado passou a ser realizado de forma remota por causa da pandemia da Covid-19, antigas marcas da desigualdade social ganharam dimensão entre 94.204 crianças e adolescentes cearenses, de seis a 17 anos, que não tiveram acesso a atividades remotas.

Matriculado em escolas públicas do Ceará, esse contingente não teve acesso a aulas e exercícios no mês de julho, excluindo aqueles de férias, como revelam dados filtrados pelo Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) e pela Rede de Pesquisa Solidária, com base no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

“Imagina que são estudantes de várias classes sociais que estão numa corrida para chegar numa situação de vida melhor. O fato de você nascer numa família rica já te dá 100 metros de vantagem. Estudar numa escola particular, mais 100 metros. Aí vem a pandemia, e o fato de não ter internet e as políticas de Educação não responderem direito dão metros de vantagens para os mais ricos. É o que a gente chama de desvantagens cumulativas”, associa Ian Prates, sociólogo responsável pelo levantamento.

Quando comparado com os outros estados, o Ceará fica em quarto lugar no ranking nacional das localidades em que mais estudantes receberam os materiais didáticos – onde apenas 6,1% ficaram sem este acesso – atrás do Paraná (3,4%), Santa Catarina (3%) e do Mato Grosso do Sul (2,9%). O resultado foi melhor que o de São Paulo (6,2%) e de Rondônia (6,9%), que aparecem na sequência.

Entre os cearenses sem acesso a atividades remotas, contudo, um perfil sofre mais com a desigualdade de acesso à Educação evidenciada em tempos de pandemia: 65.893 estudantes – 69,4% do total -, são alunos pretos, pardos e indígenas. Os alunos de cor branca que não conseguiram acompanhar as lições são 28.311, 30% do número geral.

Os números são proporcionais aos de matrículas nas escolas públicas: são 1.258.947 no Ceará, sendo 907.816 não brancos (72,1%) e 351.131 (27,9%) brancos.

Turmas formadas por alunos de diferentes realidades, acrescenta o sociólogo, reúnem famílias que enfrentam, há anos, a falta do básico. “Uma desigualdade que já existia e que não era tão sentida. A partir do momento que recursos digitais, como o acesso à internet, passam a ser fundamentais para a manutenção das atividades escolares, se torna mais um motor de desigualdades”, analisa.

Walyson Moura da Silva, estudante de 15 anos numa escola de Maranguape, está na corrida citada pelo sociólogo e convive com a falta de infraestrutura nos treinos rumo ao ensino superior. “Antes das férias, eu fazia as atividades com o celular emprestado da minha madrasta, e depois, como eu não tinha celular e nem Whatsapp, fiquei desinformado de como seria a volta do terceiro período”, lembra.

Sem aparecer virtualmente nas aulas ou entregar as atividades, o aluno foi visitado presencialmente por um dos professores. Desde então, a família se organizou para conseguir disponibilizar um celular, ferramenta dos estudos. “De certa forma, melhorou bastante, porque embora não seja presencial, a gente tem uma relação com os professores online para tirar dúvidas. Claro que têm matérias que são mais complicadas e seria melhor presencial”, pondera.

As diferenças estruturais entre escolas públicas e privadas, que conseguem alcançar com maior abrangência seus estudantes durante a pandemia, somam-se à outra desigualdade. “Dos recursos das famílias, pais que são mais escolarizados tendem a acompanhar os resultados dos filhos. Essas famílias compram livros, levam os filhos para bibliotecas, museus, e isso tudo afeta muito como os estudantes se dispõem para o estudo e as atividades escolares”, observa Prates.

“Na modalidade de ensino remoto, a gente percebe sim um desinteresse. Há uma dificuldade dos pais a incentivar aos estudos quando você não tem nem mesmo a questão das tecnologias”, complementa o professor Jonatan Floriano da Silva, do Departamento de Matemática da Universidade Federal do Ceará (UFC), que trabalha com educação a distância.

O especialista analisa que ainda é preciso avaliar quais serão os prejuízos futuros. “É difícil a gente conseguir dimensionar, mas a curto prazo. São vários os problemas: de convívio social a evitar algumas situações de violências que só são percebidas por causa da escola. É um problema que precisa ser visto. O Governo do Estado tem essa preocupação, mas infelizmente alguns colégios públicos não conseguem ter acesso a essas tecnologias”, percebe.

Os dados do levantamento do Cebrap detalham o tempo semanal de dedicação dos estudantes por faixa etária. Os cearenses entre seis e 10 anos dedicaram 12,6h e ficaram atrás apenas dos alunos do Distrito Federal, que investiram 14,5h aos estudos. Entre os de 11 e 14 anos, o tempo médio foi de 13h e, entre os maiores, de 15 a 17 anos, 12,4h semanais.

Fonte: Diário do Nordeste.

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